CARTA DO AVIADOR


                                     Por Leilton Lima

Escrevo agora sob a sombra do baobá do poeta
por que em meu planeta Natal
os baobás são bem-vindos.
Você me fez ver, outra vez,
carneiros através das caixas.
Você me fez redescobrir
a imensidão de uma única flor.

Mas, como a raposa,
você fugiu de mim
todas as vezes que me mexi.
Diga a distância que lhe parece segura,
que eu lhe provarei que não sou caçador.
Combinemos a hora da sua chegada
por que também eu começarei
a ficar feliz uma hora antes.

Já conheço o barulho dos seus passos.
Já amo os canteiros livres de xananas
por que neles encontro o seu sorriso.

Mas temo lhe falar, por que a linguagem
é fonte de mal entendidos.
Espero na relva até poder lhe cativar
para que você seja a única xanana
em meio as cinco mil outras
Que enfeitam meu passeio.


23.05.08



Escrito por Leilton Lima às 01h29
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Jardineiro

            Por Leilton Lima


Não me cai bem o manto escarlate
e a espada reluzente.
Não me vejo herói decepando inimigos.

Não encontro orgulho em fazer escorrer
pela minha lâmina, o sangue de dragões .

Jamais serei teu príncipe encantado.
Antes, me encanto com as flores.
Posso ser, se quiseres,
teu jardineiro encantado.

11.04.2009



Escrito por Leilton Lima às 01h26
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Idealização

                      Por Leilton Lima

Eu tenho uma idéia de você...
Acredito em você assim
perfeita para mim.
Apequeno seus defeitos.
Agiganto suas virtudes.

Como prestar atenção
à sua confissão de falhas,
se ao fazê-la, os gestos de sua mão
geram desenhos de aroma no ar,
rabiscando de vapor lilás e azul
o espaço vazio no meio da sala?

Ah, você pode abrigar minha idéia sim!
Ela cabe em você,
como cabe no cachepot
a orquídea florida.
Ninguém lhe nota os vazios.
Ninguém lhe percebe a mudez.
Estão todos entretidos de cor e de forma
Como estou eu agora...



Escrito por Leilton Lima às 18h26
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Rústico
                           Leilton Lima

Não há disfarces
na carícia das minhas mãos calejadas
sobre tua pele de nuvem.
É uma verdade rude,  esses dedos trêmulos
que tocam teu rosto seda de moça bonita.

Meu coração matuto
não sabe meias-paixões, meios-amores.
Não conhece atalhos para os sonhos, como tu.
Só sabe ser assim sempre.


Então não estranhes
esse amor inlapidado que te quer. 
Que te exige toda, como se tivesse esse direito.


Ele é pedra preciosa, ainda tosca,
vivendo no aconchego da terra.
É pássaro do lago florido,
Que não acha graça na piscina.
É flor do mato de beleza agreste.
Aberta.
Indefesa diante dos teus labirintos
e subterfúgios e subterrâneos.



Escrito por Leilton Lima às 09h19
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Outra vez

                            Por Leilton Lima


Sim.  Tive o coração em frangalhos.
Mas não enaltecerei essa angústia em minha poesia.
Acaso não resta a semente
mesmo quando a fruta se esbagaça?
De que me vale a dor fratura-exposta
alimentando a piedade alheia?

Não. Minhas  lágrimas serão minhas apenas
Que me lavem...
Que me levem os fragmentos de sonhos vencidos,
limpando o lugar que será ocupado
por outros sonhos ávidos à nascer.

Que venham então!
Que risquem na minha alma
outra vez as cores ilusórias do amor
Eu prefiro assim.
Não me serve aprisionar o peito
em armadura de dor.

Esquece minhas lágrimas.
Presta atenção nos meus passos.
Estou outra vez no caminho.

22-07-09



Escrito por Leilton Lima às 23h02
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 Silêncio 

 

                               Por Leilton Lima

 

O que tenho a lhe dizer é silêncio. 

Mudez de quem se extasia diante do mar.

Música silenciosa que

canta dentro da gente

e nos embala e acaricia

em meio ao tráfego. 

O que tenho a lhe falar são

mãos de vento soprando

a pele aberta a arrepios.

 

Por que em mim soa apenas o barulho

que o sonho faz quando é sonhado. 

Apenas a melodia do abrir e fechar

das asas da borboleta

e o canto da pintura de prata

que a lua derrama sobre a água do lago. 

 

O mundo já não grita

apenas reverencia essa canção

de amor que meu coração cantarola baixinho

enquanto se desenha em minha alma

seu rosto a sorrir pra mim. 

  

29 de abril de 2008



Escrito por Leilton Lima às 15h51
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    Máscaras

Por Leilton Lima

Nós, sem as máscaras, estamos nus.
É de fragilidade e medo essa nudez.
Então vistamos logo nossas roupas
esterilizadas de encanto.
Desfilemos com elas pelas ruas estéreis.

Nosso sonho não mais poderá nos fazer mal.
Só nos é permitida a dor conhecida.
Só está ao nosso alcance a dor antiga,
agora reformulada.
Pintada sobre sorrisos ocres.

Quem cometeria a suprema estupidez
de acreditar ter a força para entender
a substância da agonia das poesias incompletas?
Quem, além de mim?

Sou quixotesco. 
Os moinhos de ventos
são verdadeiramente gigantes.



Escrito por Leilton Lima às 23h32
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Solúvel em sorrisos

                                        Por:  Leilton Lima

Eu não te amo.
Pelo menos não ao ponto
de dormir ao relento, na tua calçada,
arrebentado de vinho e de dor.

Não.
Não me passa a idéia de arrancar
do teu peito esse amor ancestral
que conduz teus olhos para uma leve tristeza,
que por ser tua, se torna linda.

Apenas sonho com momentos em
que possamos romper juntos
as teias envelhecidas
de sentimentos fragilizados.
Que venha o salto, o vôo, o mergulho.

Inventemos nós um novo sabor de beijo.
Oficializemos a teoria da irresponsabilidade cálida,
nos permitindo, nos deixando, nos querendo bem.
Seremos um problema solúvel em sorrisos
a ser bebido em horas clandestinas.



Escrito por Leilton Lima às 23h02
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Semente de vida

Ela estava com medo, naquela escuridão.
As paredes a comprimiam.
A falta de espaço causava uma sensação de sufocamento.
A certeza de que não tinha forças a enfraquecia.
A cela se revestia de angústia.
Impossível se mexer.
A sensação do árido ao seu redor era a única coisa real.

Cansada de observar a dor
ela pensou que poderia superá-la de imediato.
Fracassou.
Lágrimas nasceram da sua impotência.
E a aridez se transmutou em fria umidade.
E a sua prisão ganhou a umidade como companheira.

Não se sabe quando, mas um dia ela decidiu
olhar para si além da dor, diariamente.
E sonhar...
Enquanto praticava aquele exercício
esquecia da sua condição de prisioneira.
E aos poucos algo começou a crescer em seu âmago.
E aos poucos aquilo que crescia internamente
impulsionava um crescimento de dentro para fora.
E ela começou a crescer dentro da sua prisão.

Às vezes ela acrediva que eram as paredes que estavam
fechando-se sobre ela.
Depois percebia, apavorada, que era ela quem se expandia
avançando inexoravelmente contra o invencível.
Então, num daqueles dias comuns em que tudo pode acontecer,
seu crescimento chegou a um ponto em que
o aperto do cárcere se tornou insuportável.
E ele — não ela — cedeu pela primeira vez.
Quem visse de fora nada perceberia
Mas o fato a fez explodir em alegria.
E o cárcere não pode conter aquela explosão de felicidade
e rasgou-se lhe deixando livre o caminho.

Ainda havia escuridão, mas se via luz lá em cima.
E lentamente e cheia de entusiasmo ela seguiu em direção àquela luz.
Estava findo o seu tempo de prisioneira da semente.
Sua nova vida de árvore dava agora os primeiros passos.
Em um breve futuro ela iria cumprir seu destino:
alimentar famintos de vida.



Escrito por Leilton Lima às 23h01
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Resgate
                               Leilton Lima

Eu era um menino, de olhos derramados em dor
perdido em terras do desconhecido
Eu era um ancião alquebrado,
buscando em vão as últimas forças.
Errei por labirintos de rochas sombrias
Vaguei por  florestas de árvores mortas
Queimei os pés nas areias de fogo de desertos sem vida
Garganta seca de afeto e de amor.

E você me conduziu, com a suavidade
do pressentimento das auroras.
Você tinha palavras de luz,
Que se acendiam feito faróis
naquele oceano de sombras e terror.
Você tinha sorrisos,
pontos de cores  que se estendiam
nas margens daqueles caminhos castigados de escuridão.
Segurei sua mão etérea com festa e temor.
E fui.

O labirinto, a floresta, o oceano, o deserto.
Todos foram portas de entrada para
meu próprio universo,
hoje, vale de flores luminescentes,
repleto de ocultos a serem desvendados.

Estou de volta à trilha.
Terei por você eternamente
a doce gratidão dos náufragos
resgatados para mais uma vida.

 



Escrito por Leilton Lima às 22h38
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    Soneto do despertar
                                              Por Leilton Lima

E o tempo dentro de mim estacionou
Folha caída vagando nas correntezas
Voltei ao ventre que me moldou
Perdi no vento minhas certezas

Da suavidade desse abandono
Acordei olhando para o teu sorriso
Escorreguei para a vida, saí do sono
Realidade incerta, sonho preciso

No meu colo desperto, brotou em flor
Tua cor morena, o meu rubor
Em um toque mudo tudo foi dito

E assim nasceu de uma poesia
Do sabor de um beijo e da fantasia
De dentro da vida, esse amor infinito



Escrito por Leilton Lima às 23h17
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      Essência

                                       Por Leilton Lima


Ontem, não eras mais que uma linda gota de chuva
acendendo de luz o espinho da rosa.
Impossível te tocar sem interferir.
Impossível te tocar sem nos ferir.
Eu ficava então a vigiar, aguardando
o sol te transformar em cheiro
para te aspirar e sentir-te dentro de mim.
E eu saía por aí exalando tua essência
enfeitando de ti todo o cinza ao meu redor.
E a rua onde eu moro ficou mais linda
e atraiu passarinhos e borboletas.

E era só. 

Mas hoje amanheceu, riscada no céu,
a emoção contida numa lágrima de amor impossível
chorada no tempo dos druidas.

E tudo mudou.

Tu já não és mais etérea.
És meu sonho a ofegar em minhas mãos
Já não és apenas a fonte de minha poesia.
És beija-flor que achou néctar
em minha boca ressequida.
E tua essência não mais se espalha ao vento.
Agora habita minha alma em turbilhão
Crescendo, crescendo, crescendo…
E eu já não sei mais o que fazer contigo
tão grande assim dentro de mim.



Escrito por Leilton Lima às 23h03
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Caminho da luz

        Por Leilton Lima

Conheço o fundo desse poço.
Por vezes fui seu hóspede insone.
Tateei sem ânimo a sua escuridão.
Senti na alma sua umidade sombria.

Apoiei nos ombros os companheiros de desventura.
Passei lá o tempo exato do meu medo,
da minha covardia.

Mas esse tempo é por nós determinado.
Saí ajudado, rasgado. 
Coração repleto de cicatrizes.
Mas saí.
Havia em mim a certeza de jamais voltar.
Mas voltei.

Lá reencontrei os antigos companheiros de dor.
Eles atrasados na busca,
eu reincidente em quedas
Mas já sabia o caminho da luz.

Eis-me aqui outra vez repleto de sonhos.
O fundo do poço perdeu
o poder de me assustar.



Escrito por Leilton Lima às 22h53
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O SORRISO DO ESPELHO

                                                                 Por Leilton Lima

Tenho escrito para mim, falado para mim, olhado para mim.
Tarefa extenuante, o salto nesse portal de incertezas e ocultos.
Quantas vezes o corpo não tremeu?
Quantas vezes não verteu suor frio na face?

Vi-me explorando essa escuridão,
sob a agressividade do silêncio.
Sozinho, pois uma simples companhia
afeta a realidade dos achados.

Nas mãos trêmulas, brilha a luz débil de uma candeia inconstante
Que, por vezes, se apaga quando eu mais preciso
e me obriga a voltar a reacendê-la.
E ao fazê-lo preciso ser zeloso até com as lágrimas,
por que lágrimas apagam chamas débeis.

E eu sigo explorando essa escuridão,
sob a segurança da determinação.
Sozinho, pois qualquer outro olhar distorce o insondável.

Assim, celebro vitórias.
Vendas são desvendadas.
Véus caem rasgados amaciando a rudeza do chão sob meus pés.
Belos eus começam a rasgar as paredes da prisão
e aspiram o cheiro que vem do mar.

É a candeia que mais se acende, ou eu que começo a ver melhor?
Ainda não sei.
Só sei que sou viajante do meu próprio oculto.
Explorador de minhas próprias forças.
Desbravador do meu próprio caminho.
Juiz da minha própria sentença.

Muitos poetas encontram poesia em seu próprio sofrimento.
Eu, ao contrário, busco no sorriso do espelho a poesia
e sigo escrevendo, por que é preciso,
a poesia de viver.


Recife, 18 de novembro de 2007



Escrito por Leilton Lima às 22h44
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O guardião das orquídeas

                                                                Por Leilton Lima


Ontem, choveu e eu me embebedei junto a terra
E assisti as xananas espiando para fora do verde
E seriguelas se lavando para se dar aos pássaros
E o torrão ressequido chupar as gotas até mudar de cor.

Hoje, o horizonte não me trouxe sinais.
A não ser sua própria presença.
A tela aberta pronta para receber pintura de nuvens.
Então, abri o embornal das lembranças
e tirei de lá a alegria de saber
que não é necessário ver as nuvens
para se ter certeza das águas.

Sou o guardião das orquídeas,
que pedem um ano para entregar sua flor.
Sou o semeador das jabuticabeiras,
que sequer prometem frutos a quem as semeia.

Sou artesão de sublimidades,
as quais crio com trançados
de raros detalhes sazonais.

Por isso, não estranhe o meu sorriso
nem meu olhar que se volta para o futuro
até se misturar com o azul do horizonte.
Estou aguardando as próximas gotas,
encantado com a própria espera.


                                                          07-07-09



Escrito por Leilton Lima às 23h31
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