Semente de vida

Ela estava com medo, naquela escuridão.
As paredes a comprimiam.
A falta de espaço causava uma sensação de sufocamento.
A certeza de que não tinha forças a enfraquecia.
A cela se revestia de angústia.
Impossível se mexer.
A sensação do árido ao seu redor era a única coisa real.

Cansada de observar a dor
ela pensou que poderia superá-la de imediato.
Fracassou.
Lágrimas nasceram da sua impotência.
E a aridez se transmutou em fria umidade.
E a sua prisão ganhou a umidade como companheira.

Não se sabe quando, mas um dia ela decidiu
olhar para si além da dor, diariamente.
E sonhar...
Enquanto praticava aquele exercício
esquecia da sua condição de prisioneira.
E aos poucos algo começou a crescer em seu âmago.
E aos poucos aquilo que crescia internamente
impulsionava um crescimento de dentro para fora.
E ela começou a crescer dentro da sua prisão.

Às vezes ela acrediva que eram as paredes que estavam
fechando-se sobre ela.
Depois percebia, apavorada, que era ela quem se expandia
avançando inexoravelmente contra o invencível.
Então, num daqueles dias comuns em que tudo pode acontecer,
seu crescimento chegou a um ponto em que
o aperto do cárcere se tornou insuportável.
E ele — não ela — cedeu pela primeira vez.
Quem visse de fora nada perceberia
Mas o fato a fez explodir em alegria.
E o cárcere não pode conter aquela explosão de felicidade
e rasgou-se lhe deixando livre o caminho.

Ainda havia escuridão, mas se via luz lá em cima.
E lentamente e cheia de entusiasmo ela seguiu em direção àquela luz.
Estava findo o seu tempo de prisioneira da semente.
Sua nova vida de árvore dava agora os primeiros passos.
Em um breve futuro ela iria cumprir seu destino:
alimentar famintos de vida.



Escrito por Leilton Lima às 23h01
[] [envie esta mensagem] []



Resgate
                               Leilton Lima

Eu era um menino, de olhos derramados em dor
perdido em terras do desconhecido
Eu era um ancião alquebrado,
buscando em vão as últimas forças.
Errei por labirintos de rochas sombrias
Vaguei por  florestas de árvores mortas
Queimei os pés nas areias de fogo de desertos sem vida
Garganta seca de afeto e de amor.

E você me conduziu, com a suavidade
do pressentimento das auroras.
Você tinha palavras de luz,
Que se acendiam feito faróis
naquele oceano de sombras e terror.
Você tinha sorrisos,
pontos de cores  que se estendiam
nas margens daqueles caminhos castigados de escuridão.
Segurei sua mão etérea com festa e temor.
E fui.

O labirinto, a floresta, o oceano, o deserto.
Todos foram portas de entrada para
meu próprio universo,
hoje, vale de flores luminescentes,
repleto de ocultos a serem desvendados.

Estou de volta à trilha.
Terei por você eternamente
a doce gratidão dos náufragos
resgatados para mais uma vida.

 



Escrito por Leilton Lima às 22h38
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


Histórico
Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Mais poesia de Leilton